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domingo, 3 de julho de 2011

Transgenitalização: Ele virou ela. E foi parar na penitenciária feminina


Ele virou ela. E foi parar na penitenciária feminina

Decisão foi tomada por juiz, porque detenta poderia "sofrer sérios abusos" em cadeia masculina


Olhos no futuro. Mesmo na prisão, 
Crislane  - nome que planeja adotar - não deixa
de lado a vaidade e sonha com a liberdade
De short e camiseta, ela entra na sala de maneira discreta. Esguia, exibe dentes brancos, lábios carnudos. Logo revela sua maior preocupação: os pelos visíveis em seu rosto. Em meio às 348 internas do Presídio Feminino de Tucum, em Cariacica, ela tem uma história incomum: sua identidade informa que é uma pessoa do sexo masculino, mas seu corpo, submetido a uma cirurgia de transgenitalização (substituição do pênis pela vagina), revela o contrário.

Crislane Santos, 34 - nome que planeja adotar, assim que obtiver autorização judicial -, não poderia estar presa entre homens porque poderia "sofrer sérios abusos físicos e sexuais por parte dos demais detentos", caso fosse para um presídio masculino.

É o que diz uma decisão do juiz Marcelo Menezes Loureiro, atendendo a argumentos do Grupo Especial de Trabalho em Execução Penal. Por isso a Secretaria de Estado da Justiça (Sejus) mandou Crislane para Tucum. Trata-se do primeiro caso desse tipo no sistema penal do Estado.

Presa com o companheiro sob acusação de tráfico de drogas - embora negue o crime, responsabilizando uma amiga que abrigou em sua casa pelo porte de 17 pedras de crack -, ela chegou a Tucum em março. Antes, teve que passar por outras unidades, onde diz ter se sentido humilhada e constrangida.

A primeira foi uma delegacia em Cariacica. "Estava de salto alto, bem-vestida, de cabelos tratados, mas o policial me fez tirar a roupa para a revista, porque minha identidade traz meu nome de nascimento", diz Crislane, que em seguida foi mandada para uma cela em companhia do companheiro - um rapaz de 22 anos - e outros nove homens.

Mas um policial mandou que a retirassem da cela, e Crislane foi, então, para o Centro de Detenção Provisória (CDP) masculino de Viana, onde, mais uma vez, foi minuciosamente avaliada . Nova revista, nua de novo, agora ela foi fotografada. "Chorei, humilhada. Onde vão exibir aquelas fotos?", preocupa-se.

Depois do CDP, foi levada para o Presídio de Segurança Média, onde ficou por cinco dias até chegar ao Presídio Feminino de Tucum e ser revistada novamente, desta vez por agentes do sexo feminino.

Crislane garante que nunca fora presa antes. "Da cadeia você pode sair uma pessoa ótima ou má. Isso aqui não é vida para ninguém. Não sou delinquente. Sou inocente", assegura ela.

Usuária de cocaína, ela conta que conheceu uma jovem que, ao vê-la desempregada, lhe sugeriu trabalhar como babá na casa de uma irmã.

"Sou cabeleireira, estava em situação difícil e aceitei o emprego", diz Crislane. Ela diz que, na madrugada em que foi presa, estava na casa da mãe com o parceiro - a quem chama de marido - e a amiga. "Quando a polícia disse que havia prendido um rapaz na rua e que ele denunciou que fazíamos tráfico na casa, neguei. Não sabia que minha amiga havia escondido pedras de crack e um revólver no quintal", explica ela.

Os maiores desejos de Crislane, agora, são a conquista de sua liberdade e a obtenção de uma nova identidade com seu nome feminino. Mas ela também quer garantia de acesso a hormônios que possam fazê-la "mais feminina".

"Lá fora já discriminam por sermos diferentes. Imagine o que vão dizer de uma transexual que saiu de um presídio..."
Crislane Santos


"Lei não trata sobre essa questão", diz secretário 
Para evitar que sejam abusados sexualmente, homossexuais com características muito femininas não submetidos à cirurgia de transgenitalização são encaminhados pela Secretaria de Estado da Justiça (Sejus) para o Presídio de Segurança Média 1 (PSME 1), em Viana. Ali, ficam juntos de acusados de pistolagem.

O secretário estadual de Justiça, Ângelo Roncalli, diz que a lei não trata da questão. E explica que desconhece caso semelhante ao de Crislane Santos, que foi encaminhada a um presídio feminino graças a uma ordem da Justiça, por ser transexual.

"É uma questão de bom-senso, que há que se respeitar", diz o secretário. Na última sexta-feira, o PSME 1 mantinha oito homossexuais - quatro deles travestis.

Assim como presos e presas heterossexuais, os homossexuais têm direito a visita íntima desde que tenham parceiros fixos.

Roncalli admite que, no futuro, o Estado deverá dispor de uma unidade prisional exclusiva para homossexuais assim como já existe em São Paulo. E, em decorrência do envelhecimento da população, a segmentação não deve parar por aí. No Chile, por exemplo, já existe presídio para idosos.

"A opção sexual do encarcerado não pode lhe trazer prejuízo, ainda mais se, sob a custódia estatal, correr risco de sofrer abusos"
Marcelo Loureiro
juiz

Atrás das grades

348 internas
É o número de mulheres que permanecem presas no Presídio Feminino de Tucum, em Cariacica.

Cláudia Feliz 
A Gazeta

sábado, 10 de julho de 2010

Bruno já defendeu time de penitenciária em Minas Gerais

Ironia do destino: quando jovem, Bruno defendeu time de penitenciária

Destaque de escolinha aos 16 anos, goleiro fez parte de equipe de funcionários do presídio José Maria Alckmin, em Ribeirão das Neves

Por Cahê MotaDireto de Ribeirão das Neves, MG
Em 2000, quando viu o talento precoce o colocar, com apenas 16 anos, em uma equipe que em sua maioria era formada por jogadores adultos, Bruno não tinha noção da peça que estava sendo pregada pelo destino em sua vida. Revelação da Escolinha de Futebol Palmeiras, o goleiro foi convidado para defender em algumas oportunidades a Associação de Funcionários da Penitenciária José Maria Alckmin, em Ribeirão das Neves, cidade onde nasceu.
Bruno time funcionários e filhos penitenciáriaBruno (em destaque) entre os funcionários da penitenciária José M. Alckmin (Foto: Cahê Mota / Reprodução)
Nos dez anos seguintes, Bruno cresceu, se profissionalizou e virou “o melhor goleiro do Brasil” para a torcida do Flamengo. Trocou o papel de promessa pelo de ídolo. Sonhou até mesmo com a seleção brasileira. Defendeu também Atlético-MG e Corinthians, e voltou a Minas Gerais. Voltou a vestir, nesta sexta-feira, o uniforme de uma penitenciária, a Nelson Hungria, em Nova Contagem. Só que dessa vez não como convidado, mas como acusado do desaparecimento da ex-amante, Eliza Samúdio, em um caso que envolve relatos estarrecedores e suspeita de assassinato.
Responsável pela primeira passagem de Bruno pela penitenciária, Edson Alves, o “Fera”, primeiro técnico de Bruno, lamenta a infeliz coincidência e torce para que o pupilo consiga mudar o destino.
- Nesse time tinha também fisioterapeuta, secretário de saúde, agente penitenciário, médico.... Era o time a Associação Esportiva Funcionários da Penitenciária, onde jogavam os filhos e funcionários. Além dos jovens que se destacavam na cidade. Com certeza é uma ironia do destino. Só espero que esse não seja o destino dele.
Ainda envolvido com projetos sociais e escolinhas infantis, Edson Alves se mostrou estarrecido com as notícias envolvendo Bruno.
- Torço para que ele não faça parte dessa história, para que não dê nada para ele. Vendo pela televisão até sofro. Se passar na televisão uma notícia de que o Lula foi preso, mesmo sem ter amizade, eu vou sentir o impacto. Imagine quando se trata de uma pessoa com quem convivi e sei que tem um potencial enorme. É chocante ligar a televisão e ver que o Bruno foi preso acusado de um assassinato.

Ex-técnico pede que goleiro reflita sobre episódio
A surpresa é justificada quando “Fera” recorda o período em que dava aulas para Bruno. Segundo ele, tanto na infância quanto após o sucesso como atleta o goleiro não demonstrou nenhum tipo de comportamento que o fizesse levar a crer no envolvimento no desaparecimento de Eliza Samúdio.
Se houver a condenação, espero que ele coloque a mão na consciência, que reflita sobre isso tudo"
Edson Alves, ex-professor de Bruno
- Enquanto conviveu comigo, nunca me deu problema. Sempre teve o maior respeito comigo, até como pai, mesmo depois do sucesso. E eu nunca fui atrás dele para cobrar nada. Pela pessoa que eu conheci até a adolescência, não esperava mesmo tudo que aconteceu. Só peço a Deus que o ilumine para que não esteja encrencado como dizem as reportagens. Vai ser um alívio. Não só para o Bruno, mas para a classe do jogador de futebol.
Como bom professor, no entanto, Edson Alves torce para que Bruno tire lições de tudo que está passando. Sem abandonar o ex-aluno, “Fera” torce pela recuperação do goleiro, mesmo que seja considerado culpado.
- Se houver a condenação, espero que ele coloque a mão na consciência, que reflita sobre isso tudo, e exponha o resultado aqui fora. Que passe parar as crianças o que aconteceu e diga que não quer ver o problema se repetir. Pode realizar trabalhos sociais.
Bruno foi aluno da escolinha de Edson Alves dos 13 aos 16 anos, quando tentou a sorte nas categorias de base do Democrata de Sete Lagoas.