domingo, 3 de julho de 2011

Corpos sem cabeças. Cadáveres decapitados são lançados em jornais do México

Corpos decapitados são lançados em jornais do México

Os corpos de dois homens decapitados foram lançados nas sedes de dois jornais no oeste do México, hoje, afirmaram promotores. Um porta-voz da promotoria informou que, aparentemente, os dois casos ocorreram simultaneamente.

Os corpos foram jogados diante dos diários Noroeste e El Debate, ambos da cidade de Mazatlán. Junto com os corpos, havia mensagens ameaçando o governador do Estado de Sinaloa, Mario López Valdez, e o prefeito de Mazatlán, Alejandro Higuera. Autoridades disseram que as mensagens eram dos cartéis Los Zetas e dos irmãos Beltrán Leyva.

"Acreditamos que os dois casos ocorreram simultaneamente. No caso do ''Noroeste'', o cadáver foi largado por volta de 1h40 (4h40 no horário de Brasília). Trata-se de um segundo homem decapitado, além do que foi deixado em frente ao jornal ''El Debate'', también em Mazatlan", explicou uma fonte da procuradoria.

O México é o país mais perigoso para jornalistas, segundo as Nações Unidas. Na década passada, pelo menos 66 deles foram mortos e mais de 10 estão desaparecidos.

Já morreram 37 mil pessoas em meio à luta entre forças oficiais e narcotraficantes, desde que o presidente Felipe Calderón lançou uma ofensiva militar contra os criminosos há quatro anos. A iniciativa, envolvendo reforços policiais e 50 mil soldados, até agora não consegue interromper a onda de violência. As informações são da Dow Jones.


AGÊNCIA EFE

O drama mexicano na guerra contra as drogas


Cinco anos após o início do conflito com o narcotráfico no México, cartéis de drogas expandem suas ações para países da América Central
ROTINA 
Mexicano ao lado do corpo do irmão, assassinado na cidade de Morelia. A guerra se espalhou pelo país e chegou à América Central
Desde 2007 até agora hoje, mais de 40 mil mexicanos morreram vítimas da guerra que é travada rua a rua pelas organizações criminosas e o governo de Felipe Calderón. Dia após dia os jornais contam histórias enlouquecidas de chacinas, decapitações, policiais e políticos corrompidos pelo narcotráfico. A ritmo de metralhadora, as editoras publicam livros sobre os principais cartéis e até a revista "Forbes" continua mantendo em sua lista de multimilionários o mítico Chapo Guzmán, o líder fugitivo do cartel de Sinaloa.

tomas bravo
Forças armadas atuam na repressão, mas vêm perdendo a guerra


O mal, portanto, tem sua cota de glória na vida cotidiana do México. O resto da paisagem é formado por autoridades sem prestígio nem credibilidade e uma sociedade assustada e invertebrada, como que ausente, sem capacidade de levantar a voz acima do ruído constante das armas de alta potência. No entanto, de um tempo para cá vão aparecendo histórias de pessoas comuns que, longe de hesitar ou cruzar a fronteira para os EUA, decidiram antepor a dignidade ao medo e enfrentar o terror, muitas vezes com a única proteção de seu peito descoberto.

Um cirurgião de Ciudad Juárez que foi percebendo que os bandidos cuja vida tentava salvar cada vez se pareciam menos com ele - um homem de 40 anos - e mais com sua filha adolescente. Uma prefeita da terra quente de Michoacán, uma das zonas mais perigosas do México, que um dia - depois que criminosos mataram seu marido - levantou a blusa e mostrou seu corpo marcado por tiros e sua decisão de não vacilar. Um vereador de Nuevo León ao qual os criminosos emboscaram três vezes, matando vários de seus escoltas. Um poeta que perdeu seu filho e agora percorre o país tentando a duras penas ressuscitar a consciência cívica, o orgulho de ser mexicano. São os novos heróis. O México heróico que luta contra o México selvagem.

De pé junto à sala de cirurgia do Hospital Geral de Ciudad Juárez, o doutor Arturo Valenzuela, 45 anos e pai de uma adolescente, foi percebendo que há apenas três anos chegavam a sua sala dois feridos de bala por semana, às vezes três, sujeitos duros, herdeiros de uma estirpe acostumada a matar e a morrer segundo as regras da droga e da fronteira, mas que mês a mês a fisionomia dos feridos e dos mortos ia se suavizando até ter os traços de uma mulher jovem. Espantado, pensou em fugir.

"Para mim era fácil", reconhece. "Além da nacionalidade mexicana, tenho a canadense. Por isso pensei que estava na hora de experimentar outra vida, de tirar minha filha e meus pais daqui, de colocá-los a salvo cruzando a fronteira." A fronteira que separa Ciudad Juárez de El Paso. A cidade mais perigosa do mundo da cidade mais pacífica dos EUA.

Ao mesmo tempo que avaliava a possibilidade de ir embora, o doutor Valenzuela também constatava horrorizado que em Ciudad Juárez já haviam terminado os bandidos de 40 anos. Já não se tratava, portanto, de uma guerra tradicional entre cartéis. Tratava-se de uma guerra total. Empurrados pela pobreza, pela desigualdade, pela falta de afeto em uma cidade acostumada a tratar as mulheres como escravas - na linha de montagem ou na casa -, centenas de rapazes crescidos sob a intempérie de bairros sem asfalto nem escolas, sem energia elétrica nem água corrente, foram engrossando as fileiras do único exército que os aceitava. Em um ritmo endiabrado, sem capacidade de escolher, esses rapazes batizados à semelhança do último galã da última telenovela foram subindo rapidamente pela escada do crime. De falcão - o que alerta sobre a chegada da polícia - a camelo. De camelo a pistoleiro. De pistoleiro a morto.

O doutor Valenzuela pensou que a única maneira de tentar interromper esse último salto mortal passava por continuar ali. "Disse a mim mesmo que minha filha ou meus pais não eram os únicos que estavam passando mal. Que na biografia de minha consciência não poderia escrever com tinta indelével que quando minha cidade precisou de mim eu fui embora. Por isso me sentei com outros médicos para ver o que se poderia fazer..." Não é preciso escrever. O doutor Valenzuela decidiu ficar.

"A primeira marcha que organizamos foi em novembro de 2008. Cerca de 200 médicos, muitos com máscaras, por temor de represálias. Já haviam disparado os sequestros, as extorsões telefônicas e os homicídios com armas longas, embora não tantos como agora. Estavam começando a montar o Comitê Médico Cidadão e eu aderi. A primeira coisa que fizemos foi criar um site na Internet com informação prática para enfrentar os sequestros. Como pensa o sequestrador? Que vítima é mais vulnerável? Inclusive pusemos um botão de pânico para que as pessoas nos chamassem em caso de necessidade, porque já então ninguém confiava na polícia. É preciso levar em conta que no ano de 2007 em Ciudad Juárez foram denunciados sete sequestros. Em 2008 foram 28. No ano seguinte já havia mais de 200 denúncias...

As pessoas não sabiam o que fazer. Negociavam mal. Pagavam resgates espantosos. Cometiam erros que punham em perigo a vítima. E o pior de tudo: uma vez que pagavam, nunca mais os deixavam em paz, continuavam a extorqui-los. Muita gente começou a deixar a cidade."

O parágrafo anterior, sem interrupções, é a pura declaração do doutor Valenzuela. Nesse parágrafo, e nos que virão depois, está sintetizada a história do que aconteceu no México nos últimos cinco anos, a chave é apenas indicada na primeira frase da reportagem: os mexicanos não foram buscar a guerra, a guerra se plantou um dia na porta de suas casas. A verdadeira classe de tropa dessa guerra sem quartel - é bom não se equivocar - não é formada pelos milhares de militares tirados com urgência dos quartéis ou os milhares de policiais federais instruídos à pressa, conectados a uma detector de mentiras para certificar a pureza de suas intenções, armados até os dentes depois e finalmente postos a patrulhar as cidades que para muitos deles parecem hostis e distantes.

Os verdadeiros soldados à força desta guerra são os cidadãos. Os vereadores de pequenas cidades que, apesar da oferta de chumbo ou prata, decidem apertar os dentes e continuar servindo a suas comunidades. As professoras que, entre a aula de matemática e a de desenho, têm de encenar agora a de sobrevivência.

Em caso de tiroteio é preciso atirar-se ao chão, não levantar a cabeça, entoar o mais forte possível uma canção divertida. "Não acontece nada", dizia Martha Rivera Alanís a seus alunos de 6 anos enquanto lá fora repicavam as balas, "basta por seus rostinhos no chão. Vamos cantar forte uma canção: 'Se as gotas de chuva fossem chocolate!'" O vídeo que essa corajosa professora de Nuevo León gravou veio demonstrar até que ponto a violência já faz parte da vida cotidiana do México, mas também de que forma os mexicanos comuns a enfrentam de forma corajosa. "Tirando-lhe a vontade", para usar uma expressão local.

Jornalistas resistem

Como lhe tiram a vontade diariamente os jornalistas mexicanos do norte, até muito poucos anos atrás exerciam seu ofício decente e tranquilamente nos pequenos diários das cidades do norte, até que de um dia para o outro se transformaram em correspondentes de guerra. Só que eles não se vestem com coletes à prova de balas, não se gabam de ter estado em conflitos distantes nem dão conferências ao voltar.

Eles - os jornalistas de Chihuahua, de Tamaulipas, de Nuevo León - nem sequer têm de atravessar a rua para ir à guerra. Vão depois de deixar seus filhos no colégio, às vezes no mesmo colégio que os filhos dos criminosos, temendo cada dia que, depois de cobrir o último tiroteio no bairro mais violento da cidade, o telefone da redação toque e do outro lado uma voz muito convincente sugira que o reizinho local do cartel do Golfo ou dos Zetas não gostaria que esse ou aquele dado ocupasse a capa no dia seguinte. E apesar de tudo os jornalistas mexicanos continuam exercendo seu ofício.

A prova é que a ONU acaba de conceder ao México o duvidoso galardão de ter-se transformado no "país mais perigoso da América para exercer o jornalismo", um prêmio ao qual só se opta reunindo muitas coroas de flores.

CLÁUDIA DARÉ, DA CIDADE DO MÉXICO


Revista Época

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