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sábado, 3 de novembro de 2012

9 coisas que nunca dizer a alguém com Transtorno Bipolar


Transtorno Bipolar - O que dizer, o que não dizer
O que você diz para o seu amado com transtorno bipolar pode fazer a diferença - seja de forma positiva ou em uma prejudicial.

Se o seu amado foi diagnosticado com transtorno bipolar , você pode estar em estado de choque e pode não saber o que dizer. É importante escolher suas palavras cuidadosamente, porque o que você se comunica pode apoiar seu amado e incentivá-lo a procurar tratamento ou fazê-lo se sentir ainda pior sobre si mesmo e seu diagnóstico, desencorajando-o de receber a ajuda de que necessita.

Transtorno Bipolar: Os Nove piores coisas a dizer

Você pode ter sido surpreendido pelo diagnóstico do seu ente querido e seu comportamento pode ser muito frustrante, mas não importa o que ele faz (ou não faz) e como a virada que você começa, fazer o seu melhor para evitar dizer o seguinte:



  1. Você é louco.
  2. Isso é culpa sua.
  3. Você não está tentando.
  4. Todo mundo tem maus momentos.
  5. Você vai ficar bem - não há necessidade de se preocupar.
  6. Você nunca vai estar em um relacionamento romântico sério.
  7. Qual é o problema com você?
  8. Eu não posso te ajudar.
  9. Você não tem que ter o seu humor descontrolado assim - eu estou ficando tão cansado disso.

A verdade é que o transtorno bipolar é uma doença genética - e é tratável. Seu amado pode estar no ciclo deprimido com muito pouca energia para ser hiperativo ou "maníaco." Isso tudo é parte da doença e ele não pode se ajudar. É importante que você seja solidário, sem importuná-lo. Ele também irá ajudá-lo se você souber o que esperar e como identificar quando o seu ente querido não está fazendo bem ou parou de tomar a medicação.

Não encontrar alguém para amar romanticamente é algo que seu ente querido pode estar preocupado, por isso tome cuidado para não reforçar essa ideia  mesmo em frustração, especialmente uma vez que não é verdade. "Há muitas pessoas com estas doenças que começam casados . Significa apenas que eles têm que fazer o seu melhor para obter a condição sob controle ", diz Jeffrey Rakofsky, MD, um psiquiatra da Universidade Emory Bipolar Disorders Clinic, em Atlanta.

Transtorno Bipolar: os oito melhores coisas a dizer

O que você deve dizer para ser solidário e ajudar a sua amada para fazer o seu melhor para gerir a condição sem ser demasiado agressivo? Alguns dos melhores palavras de incentivo incluem:


  1. Esta é uma doença médica e não é culpa sua.
  2. Eu estou aqui. Nós vamos fazer isso juntos.
  3. Você e sua vida são importantes para mim.
  4. Você não está sozinho.
  5. Diga-me como posso ajudar.
  6. Posso não saber como você se sente, mas eu estou aqui para apoiá-lo.
  7. Sempre que você sentir vontade de desistir, diga-se de segurar por mais um minuto, hora, dia, - o que você acha que pode fazer.
  8. A sua doença não define quem você é. Você ainda é você, com esperanças e sonhos que você pode alcançar.

Kristin Finn, autora de Bipolar e grávida , uma defensora da saúde mental e membro do bureau of the Depression and Bipolar e da Aliança de Apoio Bipolar, foi diagnosticada com transtorno bipolar há 30 anos e é mãe de uma filha de 17 anos de idade, com transtorno bipolar . Finn destaca que tão importante quanto isso é saber o que dizer, também é importante saber quando não dizer nada. Finn diz quando as mudanças de humor de sua filha, de repente, a melhor coisa que podemos fazer é dar-lhe espaço e não perguntar "O que há de errado?" Ou "É algo que eu fiz?" Ela acrescenta: "Lembre-se que não é sobre você. Você tem que deixar a experiência da pessoa que eles estão enfrentando. "

Finn também  sugere um grupo de apoio para o seu amado ou livros sobre a condição de que pode ajudá-lo a perceber que ele não está sozinho e que muitas pessoas vivem com transtorno bipolar a cada dia.

Dr. Rakofsky acrescenta outro ponto importante a lembrar sua amada de: "As pessoas com transtorno bipolar são geralmente muito criativa [e] talentosas. Temos pessoas como Vincent Van Gogh e outros artistas e atores por aí que falam a isso. "

Fonte: everydayhealth

O que é transtorno bipolar?


O que é transtorno bipolar? O transtorno bipolar, também conhecido como psicose maníaco-depressiva ou transtorno maníaco-depressivo, é uma condição caracterizada por alterações de humor, é caracterizado por oscilações ou mudanças cíclicas de humor. Estas mudanças vão desde oscilações normais, como nos estados de alegria e tristeza, até mudanças patológicas acentuadas e diferentes do normal, como episódios de MANIA, HIPOMANIA, DEPRESSÃO e MISTOS. . Existem dois principais subtipos de transtorno bipolar: Pessoas com transtorno bipolar I experimentaram pelo menos um episódio maníaco, enquanto as pessoas com Transtorno Bipolar II hipomaníacos experiência - que são mais leves - juntamente com a depressão. O transtorno bipolar é muitas vezes incompreendido, mas a ajuda está disponível com o diagnóstico correto e tratamento.

Sintomas bipolares
Sintomas maníacos incluem se sentir muito enérgico ou irritável, falando rapidamente, sendo facilmente distraídos, ou ter delírios ou alucinações. Alguém com transtorno bipolar que está em um período depressivo pode dormir mais do que o habitual, não tem energia, tem dificuldade de concentração, ou pode mesmo ter pensamentos suicidas.


Bipolar Tratamento

O transtorno bipolar não tem que atrapalhar a sua vida se você começar o tratamento correto. A chave para o sucesso é um plano de gestão cuidadosamente pensado, elaborada com a ajuda de seu médico e outros membros de sua equipe de saúde.

Viver com Bipolar
Mantendo-se com os seus medicamentos e terapia é importante - mas não se esqueça de cuidar da sua saúde física e emocional, também.


Bipolar Cuidando
Cuidar de alguém com transtorno bipolar muitas vezes é um trabalho de amor. Manter-se emocionalmente e fisicamente saudável é a melhor maneira de garantir o bem-estar de ambos você e seu amado.


Tratamentos alternativos para Bipolar
Tratamentos alternativos para a doença bipolar incluem vitaminas, ervas e suplementos nutricionais. Qualquer alternativa métodos são utilizados, é melhor pensar neles como complementos, não substitutos, droga convencional e terapia da conversa.

O que causa transtorno bipolar?
Os pesquisadores acreditam que existem várias causas de transtorno bipolar e estão buscando respostas em nossos genes, nosso ambiente e nossos cérebros.



A MANIA (eufórica) é caracterizada por: 


  • Humor excessivamente animado, exaltado, eufórico, alegria exagerada e duradoura;
  • Extrema irritabilidade, impaciência ou “pavio muito curto”;
  • Agitação, inquietação física e mental;
  • Aumento de energia, da atividade, começando muitas coisas ao mesmo tempo sem conseguir terminá-las
  • Otimismo e confiança exageradas;
  • Pouca capacidade de julgamento, incapacidade de discernir;
  • Crenças irreais sobre as próprias capacidades ou poderes, acreditando possuir muitos dons ou poderes especiais;
  • Idéias grandiosas;
  • Pensamentos acelerados, fala muito rápida, pulando de uma idéia para outra,tagarelice;
  • Facilidade em se distrair, incapacidade de se concentrar;
  • Comportamento inadequado, provocador, intrometido, agressivo ou de risco;
  • Gastos excessivos;
  • Desinibição, aumento do contato social, expansividade;
  • Aumento do impulso sexual;
  • Agressividade física e/ou verbal;
  • Insônia e pouca necessidade de sono;
  • Uso de drogas, em especial cocaína, álcool e soníferos.

* Três ou mais sintomas aqui relacionados devem estar presentes por, no mínimo, uma semana;
* A hipomania é um estado de euforia mais leve que não compromete tanto a capacidade de funcionamento do paciente. Geralmente, passa despercebida por ser confundida com estados normais de alegria e devem durar no mínimo dois dias.


A DEPRESSÃO, que pode ser de intensidade leve, moderada ou grave, é caracterizada por: 


  • Humor melancólico, depressivo;
  • Perda de interesse ou prazer em atividades habitualmente interessantes;
  • Sentimentos de tristeza, vazio, ou aparência chorosa/melancólica;
  • Inquietação ou irritabilidade;
  • Perda ou aumento de apetite/peso, mesmo sem estar de dieta;
  • Excesso de sono ou incapacidade de dormir;
  • Sentir-se ou estar agitado demais ou excessivamente devagar (lentidão);
  • Fadiga ou perda de energia;
  • Sentimentos de falta de esperança, culpa excessiva ou pessimismo;
  • Dificuldade de concentração, de se lembrar das coisas ou de tomar decisões;
  • Pensamentos de morte ou suicídio, planejamento ou tentativas de suicídio;
  • Dores ou outros sintomas corporais persistentes, não provocados por doenças ou lesões físicas.

* estes sintomas manifestam-se na maior parte do tempo por, pelo menos, DUAS semanas.


O ESTADO MISTO é caracterizado por: 

Sintomas depressivos e maníacos acentuados acontecendo simultaneamente;
A pessoa pode sentir-se deprimida pela manhã e progressivamente eufórica com o passar do dia, ou vice-versa;
Pode ainda apresentar-se agitada, acelerada e ao mesmo tempo queixar-se de angústia, desesperança e idéias de suicídio;

Os sintomas freqüentemente incluem agitação, insônia e alterações do apetite. Nos casos mais graves, podem haver sintomas psicóticos (alucinações e delírios) e pensamentos suicidas;
* os sintomas devem estar presentes a maior parte dos dias por, no mínimo, uma semana.
De que outras formas a doença bipolar do humor pode se manifestar:
Existem três outras formas através das quais a doença bipolar do humor pode se manifestar, além de episódios bem definidos de mania e depressão.

Uma primeira forma seria a hipomania, em que também ocorre estado de humor elevado e expansivo, eufórico, mas de forma mais suave. Um episódio hipomaníaco, ao contrário da mania, não é suficientemente grave para causar prejuízo no trabalho ou nas relações sociais, nem para exigir a hospitalização da pessoa.
Uma segunda forma de apresentação da doença bipolar do humor seria a ocorrência de episódios mistos, quando em um mesmo dia haveria a alternância entre depressão e mania. Em poucas horas a pessoa pode chorar, ficar triste, sentindo-se sem valor e sem esperança, e no momento seguinte estar eufórica, sentindo-se capaz de tudo, ou irritada, falante e agressiva.

A terceira forma da doença bipolar do humor seria aquela conhecida como transtorno ciclotímico, ou apenas ciclotimia, em que haveria uma alteração crônica e flutuante do humor, marcada por numerosos períodos com sintomas maníacos e numerosos períodos com sintomas depressivos, que se alternariam. Tais sintomas depressivos e maníacos não seriam suficientemente graves nem ocorreriam em quantidade suficiente para se ter certeza de se tratar de depressão e de mania, respectivamente. Seria, portanto, facilmente confundida com o jeito de ser da pessoa, marcada por instabilidade do humor.

Como se diagnostica a doença bipolar do humor:
O diagnóstico da doença bipolar do humor deve ser feito por um médico psiquiátrico baseado nos sintomas do paciente. Não há exames de imagem ou laboratoriais que auxiliem o diagnóstico. A dosagem de lítio no sangue só é feita para as pessoas que usam carbonato de lítio como tratamento medicamentoso, a fim de se acompanhar a resposta ao remédio.

Como se trata a doença bipolar do humor:
O tratamento, após o diagnóstico preciso, é medicamentoso, envolvendo uma classe de medicações chamada de estabilizadores do humor, da qual o carbonato de lítio é o mais estudado e o mais usado. A carbamazepina, a oxcarbazepina e o ácido valpróico também se mostram eficazes. Um acompanhamento psiquiátrico deve ser mantido por um longo período, sendo que algumas formas de psicoterapia podem colaborar para o tratamento.

domingo, 18 de março de 2012

Um novo remédio para casos de amor patológico

"Se a vontade de estar com a pessoa amada foge ao controle; se o seu comportamento mais afasta o parceiro do que aproxima; se, em vez de recompensa, o amor traz prejuízo, isso pode ser amor patológico", diz Analice Gigliotti, chefe do Serviço de Dependência Química e Outros Transtornos do Impulso da Santa Casa.


RIO — Aos 46 anos, Paula Tavares (nome fictício) estava casada, mas se apaixonou perdidamente por um outro homem. Cinco anos mais tarde, tinha ido do céu ao inferno. Espreitava o amante de madrugada em estacionamentos, para ver com quem ele estava, puxava-lhe os cabelos em público se achava que estava sendo traída, observava com raiva cada mulher que se aproximava dele. O namoro foi rompido e retomado várias vezes, porque ela implorava pela reconciliação. Até que um dia, fora de si, Paula apareceu no apartamento do parceiro e o agrediu violentamente. Foi quando decidiu buscar ajuda e se descobriu vítima de amor patológico, dependência comportamental capaz de causar tanto sofrimento quanto a compulsão por jogo, sexo ou comida. E tão destrutiva quanto as dependências químicas. Agora, pela primeira vez, o estado inaugura um serviço de atendimento ao amor patológico.

— Esta doença mata; ou você vai para a cadeia ou para o cemitério se não se cuida — diz Paula. — Eu me casei cedo, tinha um relacionamento ruim e não contava com apoio dos meus pais para me separar. Minha saída era sempre manter relações com outras pessoas. Mas aquela me desestruturou. Eu pensava: “Faço tudo por esse homem, estou 24 horas disponível, até dinheiro eu lhe dei, e ele não me quer?!”. Fiquei muito mal.

Isto foi há nove anos. Na época, Paula procurou o Mada (Mulheres que Amam Demais Anônimas), um dos grupos de autoajuda que até agora eram a única alternativa para quem, mesmo sem saber nomear seu problema, padecia de amor patológico no Rio.

O transtorno de comportamento passará a ser tratado com psicoterapia na Santa Casa de Misericórdia, no Centro do Rio. O hospital é o primeiro do estado a oferecer o serviço, e a equipe foi beber na fonte do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), pioneiro na área, para entender como ajudar aos pacientes que se tornaram dependentes da pessoa amada a ponto de se esquecerem de si. Eles sabem que isso é ruim, escondem o que podem da família, mas simplesmente não conseguem agir de modo diferente, nem terminar o relacionamento.

— Se a vontade de estar com a pessoa amada foge ao controle; se o seu comportamento mais afasta o parceiro do que aproxima; se, em vez de recompensa, o amor traz prejuízo, isso pode ser amor patológico -— diz Analice Gigliotti, chefe do Serviço de Dependência Química e Outros Transtornos do Impulso da Santa Casa. -— Muitas vezes, o relacionamento é do tipo atração fatal: a pessoa quer encontrar o parceiro o tempo todo, sente ciúme, faz escândalo. Em geral, ela sente um grande vazio dentro de si e fica tentando preencher com o outro. Na verdade, este nome, amor patológico é até questionável, porque amor não é isso. Amor liberta.

Ainda não há pesquisas no Brasil dando conta do número de pessoas que sofre deste mal. Sabe-se apenas que são muitas, e que o reconhecimento de que estão doentes é difícil, inclusive por falta de informação. A USP vem fazendo estudos nesta área desde 2006, simultaneamente à oferta de atendimento. Usa a abordagem psicodramática: dois terapeutas mediam as conversas do grupo e investem na melhora da autoestima dos participantes, na expectativa de contribuir para que eles possam desenvolver relações interpessoais saudáveis, não só no campo amoroso.

Em poucas semanas, pela experiência da universidade paulista, já é possível observar uma melhora significativa: seus especialistas recomendam de 16 a 20 sessões de psicoterapia, e, no primeiro grupo tratado, os oito pacientes apresentaram de 40% a 80% de reversão em seu quadro patológico.
Entre as pessoas que procuram o serviço, a maior parte tem o mesmo perfil: são mulheres na faixa dos 40 anos, com bom grau de escolaridade, que sofreram abandono emocional na infância.

— Na amostra clínica, vimos que as primeiras pessoas a procurar ajuda foram aquelas mais bem informadas e desesperadas, porque o parceiro havia rompido ou ameaçado romper o relacionamento — conta Eglacy Sophia, psicoterapeuta e supervisora do Setor de Amor e Ciúme Patológicos do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. — Quanto à personalidade, muitas têm alta impulsividade e espiritualidade. O fato de recebermos muitas mulheres pode ser explicado, em parte, porque elas costumam cuidar mais da saúde e têm propensão a buscar no parceiro a solução dos seus problemas.

Além da profunda perturbação mental e do comportamento irracional, as vítimas de amor patológico podem ter sintomas físicos semelhantes aos observados nas síndromes de abstinência das dependências químicas e de outros tipos de transtornos comportamentais: agitação, falta de apetite, taquicardia, insônia.

Paula Tavares, que hoje vive em paz com o marido, tem o perfil daqueles que procuram a universidade paulista. Também membro do Mada, Andréa Bastos (outro nome fictício), porém, foge à regra. Quatro anos atrás, aos 23 anos, a estudante decidiu que era hora de se tratar quando se flagrou em vias de iniciar uma luta corporal com o namorado:
— Sabia que o que eu fazia não era normal e escondia dos meus pais, para não deixá-los preocupados. Procurei ajuda para salvar meu namoro, mas acabei ficando por mim, para aprender a ter relacionamentos mais saudáveis. Percebi que em relações anteriores eu já dava sinais do problema.
A psicóloga Daniela Faertes, que coordenará o serviço de amor patológico na Santa Casa, diz que as pessoas com este mal são incompreendidas.

— Como a dependência é relacionada a um comportamento cotidiano, os outros não dão muita importância, porque acham que a pessoa só precisaria de força de vontade para acabar com a situação. Mas estudos comprovam que nas dependências químicas e em algumas comportamentais ocorrem mudanças parecidas no cérebro. As reuniões na Santa Casa ocorrerão uma vez por semana, coordenadas por dois psicólogos. Na triagem, caso apresente sintomas de uma doença decorrente do amor patológico — depressão, ansiedade, transtorno de personalidade, transtorno bipolar —, o paciente será encaminhado também a um pisquiatra.

Analice Gigliotti está certa do poder da terapia sobre o amor patológico, mas frisa que a vigilância deve ser para sempre.

— É preciso estar atento aos gatilhos que podem desencadear esse comportamento, como um parceiro que nos faz mal ou um momento de estresse — diz. — Quanto mais a pessoa diversificar seus interesses, melhor: se ela trabalhar e tiver uma boa vida social, vai ser mais difícil adoecer.


oglobo.globo.com

sexta-feira, 2 de março de 2012

Pesquisa: transtorno mental afeta 3 em cada 10 paulistanos

Três em cada dez paulistanos sofrem de transtorno mental, diz pesquisa
Mulheres são as que mais sofrem.
Entrevista foi feita com população de 24 países.


Três em cada dez habitantes da capital paulista apresentam algum transtorno mental, como mostra uma pesquisa coordenada por Laura Helena Andrade, do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas de São Paulo. A entrevista foi construída em um instituto de Michigan, nos Estados Unidos, especializado em pesquisas sociológicas, e aplicada em 24 países. As mulheres são as que mais sofrem, como mostrou o Bom Dia Brasil nesta sexta-feira (2).


A pesquisa durou cinco anos, de 2004 a 2009, e ouviu 5.037 pessoas da região metropolitana de São Paulo. Os dados de São Paulo sobre transtornos mentais são muito parecidos com os dos Estados Unidos, só que, muitas vezes, mais graves.

Casos de depressão %
São Paulo 10,4
Ucrânia 8,4
Estados Unidos 8,3

Entre os casos de depressão, São Paulo aparece com mais de 10%, seguido pela Ucrânia e pelos Estados Unidos. O número de casos de ansiedade, que inclui síndrome do pânico, e todos os tipos de fobia, atinge quase 20% dos entrevistados paulistanos. Nos casos de transtornos de conduta, ataque de raiva, déficit de atenção e hiperatividade, os Estados Unidos estão bem piores que São Paulo e aparecem com 10,5%, mais do que o dobro da Grande São Paulo – 4,2%

Casos de ansiedade %
São Paulo 19,9
Estados Unidos 19
Portugal 16,5
Nova Zelândia 15

“A gente está falando de um transtorno ativo. No momento em que a gente está entrevistando a pessoa, ela está acometida daquele problema. Só um terço dessas pessoas tiveram algum tipo de tratamento. Então elas estão desassistidas”, explica a coordenadora da pesquisa.

Transtorno de conduta %
Estados Unidos 10,5
São Paulo 4,2

As pessoas mais atingidas pelos transtornos mentais são as mulheres, pessoas que vivem algum tipo de isolamento, ou que moram em regiões da cidade com os mais altos índices de privação social.
A pesquisa confirma dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) que no Brasil e nos países desenvolvidos a primeira causa de incapacitação para o trabalho e de morte precoce é a depressão.

G1

domingo, 31 de julho de 2011

Borderline. A frágil fronteira da razão

Portadores do transtorno de personalidade conhecido como borderline são excessivamente impulsivos, intolerantes e não suportam o abandono

Bruno Abbud (Veja)

Gustavo, de 26 anos, saltou o muro de um estacionamento em São Paulo, entrou no carro e, ao perceber que estava trancado, acelerou na direção do portão. Ele é excessivamente impulsivo. No dia em que a namorada se recusou a dormir em seu apartamento, estilhaçou uma janela de vidro com o punho. Ele é intolerante. Quando terminou outro relacionamento, Gustavo quis se matar. Ele não suporta o abandono. Depois de uma briga com o pai, tentou enforcar-se com uma linha de nylon. Gustavo sofre demais. A soma dessas características indicam que ele é, sobretudo, uma pessoa doente. Diagnosticado no fim de 2010, tem transtorno de personalidade limítrofe, ou, na sigla em inglês, borderline.

Os sintomas indicam que era essa a doença da advogada Giovana Mathias Manzano, de 35 anos, cujo drama foi revelado numa reportagem de VEJA publicada na edição de 13 de julho. Giovana foi encontrada morta em Penápolis, no interior de São Paulo, depois de ter encomendado o próprio assassinato. Sem coragem para cometer suicídio, a advogada contratou um pistoleiro que disparou três tiros contra sua cabeça. Um médico da cidade chegou a classificá-la como portadora do transtorno borderline, mas o diagnóstico não foi unânime entre os especialistas.

Embora o termo borderline (a palavra significa “fronteiriço”) tenha sido cunhado em 1938 pelo psicanalista americano Adolph Stern – ele concluiu que os pacientes portadores de tal transtorno psiquiátrico estavam no limite entre a neurose e a psicose –, foi só na década de 1980 que o diagnóstico da doença se tornou mais preciso. Até então, muitos médicos acreditavam, equivocadamente, que a personalidade de uma pessoa era imutável.

Ao estudar imagens do cérebro e fazer testes em animais, o psiquiatra americano Robert Cloninger provou que a personalidade é a união entre o temperamento e o caráter. “O temperamento é herdado”, explica o psiquiatra Erlei Sassi, coordenador do Ambulatório dos Transtornos de Personalidade e do Impulso do Hospital das Clínicas (leia a entrevista). “Filho de Pittbull tem tudo para ser um pittbulzinho. Já o caráter é relacionado ao aprendizado, é formado pelo ambiente em que a pessoa vive”. De acordo com Sassi, que estuda o transtorno borderline há 15 anos, o conflito entre o temperamento e o caráter pode gerar uma personalidade problemática. É o caso, por exemplo, de uma criança extremamente perfeccionista que cresce em uma família desorganizada. O convívio levaria a uma frustração constante.

A personalidade começa a ser formada entre o fim da adolescência e o começo da idade adulta. “É nesse momento que os primeiros sintomas de um borderline costumam aparecer”, conta Sassi. O comportamento de uma pessoa, informa o psiquiatra, só configura um transtorno a partir do momento em que o indivíduo gera sofrimento para si e para os outros.

Neste ano, Gustavo tentou suicidar-se quatro vezes. Os braços riscados por cicatrizes evidenciam um dos mais aflitivos sintomas da doença: a autoflagelação. Há quatro meses, por volta das 4 horas da madrugada, deitado na cama, o rapaz telefonou para a mãe, que dormia no quarto vizinho. “Desta vez, acho que eu vou”, disse, com voz pastosa. Ela se levantou num pulo e correu para socorrer o filho. A cena assustou. Ele estava prostrado sobre uma poça de sangue. Os pulsos mutilados e as cartelas vazias do ansiolítico alprazolam caracterizavam a quarta e última tentativa de suicidio.

A versão mais recente do Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais (DSM-IV) – o guia das doenças psiquiátricas publicado pela Associação Americana de Psiquiatria –, descreve o transtorno borderline com nove sintomas: esforços desmedidos para evitar um abandono real ou imaginado; relações interpessoais instáveis e intensas; autoimagem instável; impulsividade em excesso; automutilação e tentativas recorrentes de suicídio; mudanças de humor constantes e extremas; sentimentos crônicos de vazio; acessos incontroláveis de raiva sem motivos aparentes; e episódios de paranoia. Os mesmos sintomas são apontados pela Classificação Internacional de Doenças (CID-10), publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A família - Para familiares, amigos e leigos, o sofrimento que leva um borderliner a tentar se matar é incompreensível. Segundo Antonio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, a automutilação e o suicídio são maneiras que ele encontra para extravasar um sofrimento insuportável. “O boderliner não suporta ficar só”, explica. “Faz qualquer esforço para não ser abandonado e está sempre se queixando de vazio, de uma falta de sentimento de identidade”. Fernanda Martins, psiquiatra e médica-assistente do Ambulatório dos Transtornos de Personalidade do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, conta que a família do borderliner enfrenta uma dor tão terrível quanto a do paciente.

Desde as últimas crises de Gustavo, qualquer barulho estranho dentro de casa faz com que sua mãe, Teresa, interrompa a respiração involuntariamente. Falta ar. Ela passou a acordar tarde, a deixar compromissos de lado e a fumar. Não dorme enquanto o filho permanece acordado. O som dos passos durante a noite, o ruído acelerado das teclas do computador, o toque característico do celular, tudo que emerge de Gustavo aflige Tereza, que decidiu grudar pequenos folhetos com orações pelas paredes do apartamento. Enquanto assistia ao filme 2012, uma ficção que descreve como seria o apocalipse, um irmão de Gustavo notou que a mãe parecia simpatizar com a ideia do mundo acabar no próximo ano.

Gustavo passou por uma dezena de psiquiatras e psicólogos até descobrir do que sofria. O diagnóstico de transtorno borderline demorou quatro anos. Hoje, o rapaz se concentra no tratamento com remédios e psicoterapia. Há seis meses, não passa por uma crise.

A Cura - “Os borderliners melhoram com a idade”, afirma o psicanalista Mauro Hegenberg, autor do livro Borderline. Fernanda Martins reforça a tese: “Os sintomas tornam-se mais amenos depois dos 40 anos”, diz. “Mas se o paciente não for tratado, quando chega a essa idade não se casou, não teve filhos, não se formou, não parou em nenhum trabalho. Tem uma vida tão vazia que acaba caindo em depressão”. Com tratamento, é possível – e muito provável – controlar os sintomas até que desapareçam.

Hegenberg observa que o diagnóstico do borderline é complexo. “O psiquiatra que de baseia apenas nos sintomas incluídos no DSM pode errar”, diz. “É comum confundirem a doença com o transtorno bipolar, por exemplo”. Além do diagnóstico difícil, os médicos precisam saber lidar com os pacientes. “É um atendimento que demanda muita energia”, observa Hegenberg. “Você tem que deixar o celular ligado e estar à disposição 24 horas por dia. Já atendi a muitos telefonemas de pacientes que estavam à beira de um suicídio”. Por que decidiu especializar-se num transtorno tão complexo? “O borderliner é muito cativante”, explica Hegenberg. “São pessoas interessantes, inteligentes, cheias de vida e com uma personalidade extremamente sedutora”.


Olhos claros, entre o azul e o verde, cabelos castanhos e pele branca, Marina, de 29 anos, é portadora do transtorno borderline desde a adolescência. No depoimento abaixo, descreve como se sente quando passa por uma crise:
“Quando entro numa crise, o que mais me incomoda é a sensação de não existir. É como se não houvesse motivos pra eu viver. Um vazio, uma angústia. Nada ao meu redor parece ter cor. Tudo é cinza. Sinto as coisas em câmera lenta. No entanto, meus pensamentos ficam exageradamente rápidos. Sinto uma grande ansiedade, uma incômoda agitação interna. Minha mente fica tão acelerada que, depois do fim da crise, sobra uma grande confusão mental. Algumas vezes, chego a esquecer das situações que passei. Em outras, não consigo identificar se aquilo aconteceu ou se foi um sonho. Mesmo a noção de tempo parece confusa. É como se estivesse em queda livre, num buraco escuro, frio, úmido, sem fim, com muitas imagens passando pelos meus olhos e vozes e sons, vários, zumbindo nos meus ouvidos sem parar. Procuro evitar aquela avalanche de informação, agarrar-me em alguma coisa. Mas não consigo encontrar nada para me amparar. Fico verbalmente agressiva, irritada com qualquer um ou qualquer coisa, impaciente. Sinto-me atacada, invadida a todo momento e, então, ataco de volta. Existe uma variação muito grande de humor. Pelo menos comigo, em toda crise, o pensamento de suicídio é recorrente. E a sensação de falta de esperança também. As duas piores coisas ao sair de uma crise são a vergonha e o medo da recaída”.