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sábado, 4 de junho de 2011

Medicina na Bolívia, Argentina e Cuba. Revalidação do diploma pode levar anos e recém-formados chegam a gastar R$ 10 mil

Revalidação do diploma de medicina pode levar anos e recém-formados chegam a gastar R$ 10 mil
UNIVALLE Bolivia 


Depois de passar perrengue estudando fora do país, os formandos em Medicina ainda têm um longo e tortuoso caminho para revalidar o diploma no Brasil. Até 2009 tinham que recorrer a provas de universidades federais sem periodicidade certa. No ano passado, o MEC e o Ministério da Saúde elaboraram um projeto-piloto de revalidação, com o objetivo de unificar o processo, mas, de 628 recém-formados inscritos, apenas dois foram aprovados no exame teórico, chegando à prova prática e à aprovação.

Elisabete Ostrowski, formada em 2009 na Universidade Adventista del Plata, na Argentina, foi uma delas. Ela já havia passado na prova de revalidação da Universidade Federal do Mato Grosso, em Cuiabá, mas fez a prova do projeto-piloto mesmo assim. Agora, faz residência em Ginecologia e Obstetrícia em Ribeirão Preto, na USP.

  • Para a prova escrita do projeto-piloto, é necessário estudar para complementar o conhecimento que adquirimos lá. É cansativa e extensa, o que diminui nossa capacidade de raciocínio. Para passar, eles exigiam 70%, o que é muito. Mas é que nem concurso público: quem está estudando uma hora passa - compara Elisabete.
Adventista, ela decidiu ir estudar na universidade argentina ao não conseguir passar no vestibular da UnB em 2002. Em 2007, voltou para fazer o internato no Brasil.
  • Fiz o estágio no Hospital Adventista de Belém e não vi muita diferença em relação à Argentina. O ensino lá era bom. Dá para fazer a prova prática com o conhecimento adquirido lá - diz Elisabete.
Celso Araújo, representante do MEC junto à subcomissão de revalidação de diplomas de médico obtidos no exterior, antecipa que o edital do projeto-piloto que será publicado nas próximas semanas terá duas principais mudanças em relação à primeira edição: a nota de corte será flutuante entre 50% e 80%, e a prova teórica será descentralizada em dez grandes municípios. No ano passado, tanto o exame teórico como o prático foram em Brasília.

  • Nos próximos exames, uma comissão de especialistas das universidades que aderirem ao projeto-piloto examinará a prova e, a partir daí, definirá o percentual de acerto possível e a nota de corte, que pode variar de 50% a 80% - diz Araújo.

Ele explica ainda que a descentralização da primeira etapa tem o objetivo de evitar o alto índice de abstenção do exame: dos 508 aprovados na equivalência do currículo escolar, apenas 281 foram à prova escrita:

  • Isso vai facilitar o acesso dos candidatos. Muitos faltaram porque não tinham dinheiro para viajar até Brasília. Antes, os processos eram longos, demorados e custosos para pessoas de outros estados.

Renata Pimentel sabe bem disso. Formada em 2008 na Universidade Maior de San Simón, em Cochabamba, ela calcula que gastou mais de R$ 10 mil para conseguir revalidar o diploma no Brasil. Antes do projeto-piloto do MEC, ela já havia tentado a revalidação nas federais de Goiás (UFG), Rondônia (Unir), Mato Grosso do Sul (UFMS) e UnB. Em 2010, finalmente conseguiu na UFMT.

  • Primeiro, disseram que a minha carga horária era insuficiente. Tive que voltar à Bolívia e pegar um novo documento que atestasse que a carga horária é compatível. Em traduções de documentação gastei R$ 3.500, mais R$ 2 mil com advogado, fora inscrições e viagens - detalha Renata, que pegou seu CRM na semana passada.

Apesar de não ter passado no vestibular da UnB, ela ganhou uma bolsa por ser a segunda colocada num processo seletivo para a universidade pública boliviana. Além disso, foi aprovada em um intercâmbio no Hospital Universitário de Ghent, na Bélgica, onde estudou cirurgia em 2008. Mesmo não passando para a etapa final do projeto-piloto do MEC, ela aprova a iniciativa.

  • A prova foi muito bem elaborada com assuntos importantes que todo médico deve saber. A capacidade tem que ser exigida e verificada por causa do boom de universidades particulares. O aprendizado da Bolívia é o suficiente para ser aprovado em todas as provas, mas como eu já havia passado na UFMT, fui fazer a do MEC só porque estava inscrita - ela justifica.

José Luiz Gomes do Amaral, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), diz que o alto índice de reprovação no projeto-piloto não o surpreende devido à má qualidade da maioria dos cursos de Medicina na Bolívia, Argentina e Cuba.

  • Essas escolas são muito fracas, e os estudantes chegam despreparados para exercer a profissão no Brasil. A maior parte escolhe essa via, pois não conseguiu passar no vestibular e não tem condições de acompanhar o curso médico. Em Cuba, só é preciso mostrar que um parceiro político o indicou para conseguir a vaga - afirma Amaral.

Gabriella Ribeiro não concorda. Ela se formou na Elam, em Cuba, em 2006, mas só no ano passado conseguiu revalidar seu diploma, após passar nas provas das federais de Minas Gerais e Goiás, anteriores ao projeto-piloto. Antes, ela havia tentado revalidar na UFMT por duas vezes.

  • Nunca fui filiada a nenhum partido. Ganhei uma bolsa da embaixada cubana e saí de lá preparada para tudo: desastres, atendimento médico e exames clínicos da cabeça aos pés. Em 2009, fui eliminada na UFMT porque meu celular disparou durante a prova. Vou fazer prova de residência só em 2012, pois ainda tenho muitas dívidas a pagar - ela diz.

Mato Grosso

Fonte: msja.com.br/noticias/educacao

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Faltam pediatras em hospitais e postos públicos do país

A explicação para faltar mais pediatras do que outros médicos começa nas faculdades: os alunos de medicina estão desistindo da pediatria.
Toda mãe, todo pai, até uma criança sabe o valor do pediatra. E todo mundo é capaz de imaginar o drama de não ter este médico quando mais se precisa.

A busca desesperada por um médico especialista em crianças, o pediatra, virou situação comum em todo o país. Porque, no Brasil, hoje, faltam pediatras. Em 1996, 13,6% dos médicos eram pediatras. Hoje, 9,8%.

A explicação para faltar mais pediatras do que outros médicos começa nas faculdades: os alunos de medicina estão desistindo da pediatria.

“Até uns dez anos atrás, um quarto dos cem alunos de cada turma da santa casa tinham essa preferência, pediatria. No correr do último decênio, nós notamos que houve uma queda no interesse, conta o pediatra Júlio Toporovski.

Ele atende em consultório e também na Santa Casa de São Paulo, onde, há 40 anos, é professor na residência em pediatria. A residência é um curso prático, feito depois dos seis anos obrigatórios de medicina. Referência na área, Doutor Julio sabe que o problema de falta de pediatras é nacional.

“Na minha turma só eu fiz pediatria, de 50 alunos”, diz a residente de pediatria Karina de Oliveira.

Com a diminuição da procura da pediatria, nós fomos perdendo bolsas. Então hoje nós temos 10 vagas, mas só seis bolsas, explica José Eduardo Bueno, coordenador de pediatria da PUC/Sorocaba.

O número de inscritos para a prova nacional que dá o título de pediatra depois de feita a residência caiu 42% nos últimos 12 anos.

“Se nós não fizermos nada hoje, nós não teremos pediatras no futuro”, alerta Gloria Barreto Lopes, presidente da Sociedade Sergipana de Pediatria.


No estado de Sergipe, existem dois hospitais que oferecem residência em pediatria, mas neste ano nenhuma vaga foi ocupada. Em um deles, por falta de residentes, o atendimento às crianças já está sendo prejudicado.

Em Divinópolis, Minas Gerais, o maior hospital da cidade fechou o pronto-atendimento infantil há cinco meses.

“Nós necessitamos de sete profissionais para cumprir uma escala semanal. No mês de outubro estávamos contando apenas com três profissionais. Não foi possível mantê-lo aberto”, conta Alair Rodrigues, diretor do Hospital São João de Deus, Divinópolis/MG.

No Hospital Juscelino Kubitschek, em Nilópolis, bem perto do Rio de Janeiro, a placa já avisa as mães: não há pediatra após as 18h. Por "problemas técnicos". O diretor-administrativo João Faria Moreira explica que problemas são esses.

“A médica de quinta-feira pediu exoneração. Na Baixada Fluminense, infelizmente, é muito difícil você achar pediatra. É muito grande a procura. Se eu pegar as fichas ali você vai ver que hoje a gente atendeu 300 crianças. E nós temos três pediatras de dia e três pediatras de noite”.

De onde se conclui que, no turno do dia, até as 18h, cada pediatra do hospital atendeu 100 crianças. Ou uma criança a cada sete minutos.

As equipes do Fantástico percorreram o Brasil de norte a sul. De Pernambuco ao Rio Grande do Sul. E a situação é sempre a mesma. Faltam médicos para atender as crianças. Mas por quê? Por que tantos pediatras estão pedindo demissão? E por que os estudantes de medicina não querem mais saber dessa especialidade?

“Meu pai é cirurgião-geral. Por ele, eu não faria pediatria. Então eu não sofri influência de ninguém, porque ele falava: ‘Filha, você vai morrer de fome’”, relata a residente Marcela Romangneli.

Contra a carreira de pediatra, conta também o fantasma dos telefonemas a qualquer hora do dia ou da noite.

“Eu procuro ligar sempre, antes de dar qualquer coisa. Eu acho que eles preferem que ligue”, acredita a mãe Andrea Sirolin.

A repórter pergunta se o Dr. Toporovski concorda: “Eu prefiro que não liguem, mas faz parte da profissão. É uma consulta, 200 telefonemas”, brinca o médico.

E as ligações fora de hora são apenas uma das razões. “O pediatra trabalha muito, recebe telefonema em casa, tem que estar à disposição da família. E ganha pouco”, Ricardo Gurgel, vice-presidente da Sociedade Sergipana de Pediatria.

O médico Eduardo da Costa e Silva, de 37 anos, desistiu rapidamente da pediatria. Encarou mais dois anos de nova residência e virou radiologista - faz laudos de exames de imagem e quase não tem lida com pacientes.

“Agora, para ganhar o mesmo, eu trabalho menos. Eu não trabalho dando plantão. Tenho horário mais ou menos fixo, de segunda a sexta, sei mais ou menos a hora que vou sair para casa, sei a hora que vou entrar no trabalho. Não é o dia-a-dia do pediatra comum”.

“O aluno quer uma coisa cada vez mais especializada. Ele gosta da tecnologia. Ele quer que trabalhe com as especialidades que tenham procedimentos, porque isso leva a uma melhor remuneração”, conta Jucille Meneses, presidente de Pediatria de Pernambuco.

Procedimentos são exames, cirurgias, ações pagas à parte. Na pediatria, tudo isso é raro. O dia-a-dia é feito só de consultas. E consultas demoradas.

“A criança não te diz o que sente, muitas vezes. É um trabalho de detetive. Você olha para ela entrando, olhando, vendo e tal, a mãe te dá uma noção. Você precisa ter paciência e ir juntando as pecinhas pra conseguir chegar a um diagnóstico”, afirma a pediatra Daniele Castro.

“Não vale a pena fazer consultório ganhando o que esses planos e seguradoras de saúde pagam”, reconhece Jucille.

“Muitos pediatras fecharam o consultório, foram dar plantão na emergência”, lamenta Eduardo da Silva Vaz, presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Mas essa fuga para as emergências, que pagam melhor, não garante um número suficiente de pediatras nos pronto-socorros.

O Ministério da Saúde fez uma pesquisa em 2008 com diretores de hospitais públicos para saber para qual especialidade é mais difícil encontrar profissionais. Deu pediatria em primeiro lugar.

“A gente tem mais dificuldade de conseguir contratar o profissional pediatra do que outras especialidades da área médica”, confirma Hans Dohmann, secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro.

Um hospital-geral como o de Itambé, no interior de Pernambuco, deveria ter sempre um pediatra de plantão. Não tem.

“Seria o ideal ter todos os dias. Mas, todos os dias, temos dois médicos no plantão. às vezes um é pediatra e o outro não. Às vezes nenhum dos dois é pediatra”, comenta Sime Macedo Cavalcanti, coordenadora de saúde de Itambé/PE.

No posto de saúde ao lado, onde também é obrigatória a presença de um pediatra, só há especialistas na segunda-feira.

“A gente olha a porta e vê em torno de 50, 60 crianças, 60 mães esperando. A gente tem que atender em cinco, 10 minutos, no máximo. É triste, porque a gente gostaria de fazer um atendimento mais adequado. Só se realmente a pessoa gostar muito, tiver o sonho de ser pediatra, ela vai insistir e fazer, porque a realidade é difícil”, reconhece a pediatra Andréia Maria Galvão.

Nos postos de saúde da família, o correto seria ter pelo menos um médico. Um deles em Goiânia, não tem.

Repórter: Quando chega criança pequena aqui com problema, o que é feito?
Atendente: É o enfermeiro-chefe quem atende. E quando é um caso de urgência, hospital.

De acordo com uma pesquisa encomendada pela Sociedade de Pediatria, 30% dos atendimentos de rotina a crianças e 43% dos de emergência são feitos por não-pediatras.

“As crianças da rede pública estão sendo privadas de um direito que elas têm de ser atendidas por um profissional capacitado”, adverte Eduardo da Silva Vaz.

“Está havendo uma carência de pediatras, é notória essa carência. Então, de acordo com a lei da oferta e da procura, o salário, a remuneração, dos pediatras começou a ser mais importante”, constata Dr. Julio.

O prognóstico dele começa a se realizar. Muitos pediatras já enxergam uma mudança positiva: a abertura de mais vagas em plantões. E um salário melhor.

“Eu recebi algumas propostas de emprego nesse tempo mais ou menos umas três e aceitei uma”, relata Luciana Pinheiro.

Quem se dedica à pediatria espera que essa recente valorização anime os jovens médicos a cuidar das crianças brasileiras.

“Quando o paciente entra, por exemplo, na sua sala. Ele entra chorando, sem querer ser atendido. E você começa a conversar e daqui a pouco aquela mesma criança já está rindo pra você e volta dali a duas semanas melhor do problema que ela tinha no início. Isso é muito gratificante”, conta um pediatra.

A pernambucana Danielle está em um plantão de 24 horas. Exausta, mas feliz. “A resposta é muito boa. Eu estou aqui atendendo, aí eu mando o menino, eu mando nebulizar. Quando ele volta, ele já volta melhor, já volta correndo, querendo brincar, querendo pegar meu estetoscópio. Eu adoro, eu não faria outra coisa na minha vida”, conta.

“O pediatra é um indivíduo, um médico que faz parte do exército das crianças. Pediatra, na prática e na teoria, deve ser um soldado deste exército de maneira incondicional”, resume o Dr. Julio Toporovski.

Fantástico