Nesta série, vamos falar das hepatites e você verá que as hepatites são causadas por vírus completamente diferentes uns dos outros. Alguns provocam uma doença benigna, quase sem complicações. Outros, como os vírus das hepatites B e C, provocam uma infecção crônica, que leva à cirrose e ao câncer de fígado.
Sabe quantos brasileiros existem nessa situação? Três milhões. Sabe quantos foram identificados? Cerca de 150 mil. As hepatites são uma epidemia. Infelizmente, uma epidemia ignorada.
O fígado normal é lisinho e pesa 1,2kg, 1,5kg mais ou menos. É o laboratório químico do organismo. Todo sangue passa por ele. Aí ele produz proteínas e elimina as toxinas, tanto as que vêm de fora quanto aquelas produzidas pelo próprio organismo. Os vírus das hepatites B e C são tão pequenininhos que não adianta colocar no microscópio porque a gente não consegue enxergar.
Eles infectam as células do fígado e isso faz um processo inflamatório crônico. As células vão sendo destruídas e aí o organismo vai perdendo a capacidade de formar proteínas e eliminar toxinas. A pessoa vai ficando intoxicada. Ao mesmo tempo, as células que morrem são substituídas por umas cicatrizes que vão distorcendo a forma do fígado e atrapalhando a circulação.
E, com isso, aumentam os riscos de sangramentos. Isso é um processo silencioso que dura 10, 20, 30 anos. A pessoa está doente, mas não sabe. Só vai apresentar sintomas quando o fígado estiver em péssimas condições.
“Quando eu descobri que estava grávida eu já fui fazer meus exames de pré-natal. E foi quando eu descobri, nesta segunda gestação, que eu era portadora da hepatite B”. A gravidez trouxe felicidade, mas também preocupação para Juíara, de Vacaria, Rio Grande do Sul. O momento do parto é uma das formas mais comuns de transmissão da doença.
Na coxa direita, o bebê toma a vacina contra hepatite B, como as outras crianças. Mas como a mãe tem hepatite B, na coxa esquerda ele recebe a imunoglobulina que contém anticorpos contra o vírus. Além de passar da mãe para o filho, o vírus da hepatite B também é transmitido por objetos cortantes contaminados por sangue.
Uma pesquisa realizada em salões de beleza da cidade de São Paulo mostrou que há muita desinformação. Só 20% das manicures tinham tomado a vacina. Além disso, 8% eram portadoras de hepatite B. Você tem que ter certeza que o material foi esterilizado.
A manicure vai, faz a unha de uma pessoa, sai um pouquinho de sangue e ela depois vai e faz a sua unha, fura sem querer a cutícula, esse vírus – que é uma coisa muito pequena entra e cai na sua circulação. Você usa escova de dentes dos outros? Então, material de manicure é a mesma coisa. Cada um tem que ter o seu. E se usar o material do salão de beleza tem que ter certeza de que ele foi esterilizado adequadamente.
“Em 1979, em fevereiro, nasceu minha filha Rita, a quarta de cinco filhos. Quando nascia algum filho meu, eu fazia doação de sangue. Naquele dia, o médico do hospital falou que eu não poderia mais ser doador porque eu era portador de hepatite B. O único jeito de saber, naquele tempo, era doando sangue. Não tinha exame de sangue como hoje.” Gilberto é um caso típico de hepatite B crônica. Não sentia nada, descobriu por acaso que era portador do vírus e continuou vivendo bem, sem nenhum sintoma de que a doença estava ficando grave.
“Quando foi o ano passado, eu fui ao hospital e a doutora falou para mim: ‘Olha, você está com três nódulos cancerígenos, vai ter que tratar. Se você melhorar, tudo bem. Se não melhorar, entra na fila do transplante”, conta Gilberto.
Como o fígado é um órgão que sofre calado, esses portadores crônicos não sentem nada. Só descobrirão que estavam infectados 20, 30 anos mais tarde, quando vierem a cirrose e o câncer de fígado.
“E a há quase dois anos, quando encontrei a Andrea, no primeiro eu tomei um chope preto, ela tomou um suco. Eu perguntei se a gente podia se encontrar de novo e ela falou: ‘Pode, desde que você não beba’. Aí parei de tomar cerveja, faz quase dois anos”. Os portadores de hepatite B não devem tomar bebidas alcoólicas. O álcool é tóxico para o fígado.
Hepatite B tem vacina. A única forma de acabar com a doença no Brasil. O certo era vacinar todo mundo, mas como o Ministério da Saúde não recebe recursos financeiros suficientes, decidiu estabelecer prioridades. Podem receber a vacina gratuitamente todos na faixa até 24 anos. Além deles, os profissionais de saúde, os policiais, as manicures, os portadores do HIV, além de outros grupos. A vacina tem três doses. Você toma a primeira hoje, a segunda daqui a 30 dias, a terceira daqui a seis meses. Seis meses contados a partir da primeira dose. Precisa tomar as três doses.
Chapecó faz parte de uma região que recebeu grande número de imigrantes italianos no início do século passado. Com eles, veio o vírus da hepatite B. Hoje, 7% dos habitantes da cidade são portadores crônicos do vírus B. Um número altíssimo. A partir de 1995, Chapecó desenvolveu um programa exemplar de vacinação que acabou com a hepatite B entre as crianças e que eliminará o vírus nas gerações futuras.
“A gente prima muito pela prevenção. O que a gente quer é que as pessoas completem o esquema. Façam a primeira, a segunda e a terceira dose. Nós temos uma boa cobertura de vacinação. Sempre acima de 98% das crianças são vacinadas. O Ministério preconiza até 95%, agente tem, sempre, a partir de 98%”, relata a coord. Setor de Tuberculose, Maria Luiza Trizotto.
“Eu estou montando um livro, já estou com 80 e poucos artigos, agora vou fechar o livro. Estou com dificuldade porque não estou me sentindo bem. Então, a única chantagem que eu fiz com Deus foi essa: ‘Vamos maneirar esse câncer aí porque eu preciso fazer o livro”, brinca Gilberto.
“Eu acho que, como mãe ou como qualquer outra pessoa, você deve correr atrás. Quanto mais um filho seu. Foi o que eu fiz. Fui atrás para manter ele livre. Livre da hepatite”, diz Juíara.