De acordo com o Inca, em alguns países desenvolvidos, como os EUA, Canadá e Noruega, há crescimento da incidência do câncer de mama, mas redução da mortalidade. No Brasil, o maior número de casos é seguido de mais falecimentos. O número de mortes saltou de 5.760 em 1990 para 11.860 em 2008, aumentando ano a ano.
Para a médica Maira Caleffi, presidente da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio a Saúde da Mama (Femama), a taxa de mortalidade cairá quando as mulheres se dispuserem a fazer exames periódicos de mamografia e a rede de pública de saúde estiver preparada para fazer o teste em todas as mulheres que procurarem.
“Esse é um problema de saúde básica, que não deveria ser tratado em hospitais complexos. A enfermeira do posto de saúde já tem que indicar o exame de mamografia”, recomenda a médica. Ela aproveitou esta quinta-feira (4), véspera do Dia Nacional da Mamografia, para alertar contra a doença em entrevista coletiva concedida em São Paulo (SP).
Segundo Maira, outro fator que aumenta a mortalidade é a demora no atendimento. Ela explica que o tempo ideal do ciclo de tratamento – desde o exame que descobre o câncer, a biópsia até a cirurgia ou quimioterapia – deveria ser de quatro a seis semanas. Na prática, contudo, as mulheres enfrentam filas de espera nos hospitais enquanto o câncer se desenvolve, e o tratamento pode durar meses.
US$ 300 mil
A boa notícia para as mulheres é que a rede de apoio a elas está se fortalecendo. A Femama, criada em 2006, já reúne 42 instituições, que atuam em 18 estados brasileiros. Em 2010, as ONGs querem aproveitar o período eleitoral para convencer candidatos a incluírem em seus planos de governo uma atenção especial à prevenção e controle do câncer de mama.
Uma boa ajuda também está vindo de fora. Nesta semana, durante um fórum que discutiu o problema em São Paulo, a organização norte-americana American Cancer Society (ACS) anunciou a doação de US$ 350 mil (cerca de R$ 645 mil) para fortalecer as ONGs brasileiras.
“Esse não é um problema só de hoje, é um problema do futuro”, prevê a diretora da ACS para a América Latina, Alessandra Durstine. De acordo com ela, o Brasil foi escolhido para receber a ajuda porque já conta com organizações capazes de gerir os recursos doados.
De acordo com Gustavo Azenha, diretor de programas da ACS no Brasil, os tratamentos atuais permitem curar de 80% a 90% dos casos de câncer de mama, desde que o diagnóstico seja feito de forma precoce.
Para descobrir a doença, contudo, a associação não recomenda que a mulher faça apenas o autoexame, pois quando a mulher é capaz de tocar os seios e perceber o tumor ele já pode estar em estágio avançado. A melhor forma de descobrir o câncer, de acordo com a ACS e a Femama, é a mamografia, que deve ser feita pelo menos a cada dois anos em mulheres que têm entre 50 e 69 anos. [Iberê Thenório - Do G1]
Congelar óvulos e remover a mama são dilemas na conversa com médico. Doença acomete apenas 2% das mulheres antes da menopausa
Simone Chen, 27 anos, passou por mastectomia para retirada de tumor
Simone Shen tem 27 anos. A chance de uma mulher da idade dela ter câncer de mama é pequena. Mas a paulistana recebeu exatamente esse diagnóstico em agosto de 2010. "Os médicos detectaram dois nódulos, confirmados como câncer após a biópsia", conta Simone.
Segundo os médicos, a chance de uma pessoa desenvolver câncer de mama antes da menopausa é de apenas 2%.
Para Simone, a notícia sobre o tumor só veio porque resolveu colocar silicone nos seios. Os exames de ultrassom e a mamografia, necessários para a cirurgia, encontraram os nódulos.
Profissional da área de marketing, ela precisou parar de trabalhar para passar por 24 sessões de quimioterapia. Até agora, enfrentou 11 delas. "Os remédios me deixam cansada, triste às vezes", afirma a jovem. Mesmo sob efeito das drogas anticâncer, a paciente ainda conseguiu manter parte de sua rotina, como os planos de viagem no réveillon.
Antes dos medicamentos, ela retirou as duas glândulas mamárias em cirurgia conhecida como mastectomia, mas ficou pouco tempo sem volume no peito. "Fiz reconstrução na mesma hora, já estou 'turbinada'", brinca.
Segundo o médico Alfredo Bastos, do Hospital Sírio-Libanês, a pressa tem justificativa. "A depressão na jovem pela mutilação é muito grande. Se não houver impedimento, é melhor fazer a reconstrução logo após a retirada do tumor", afirma o mastologista.
Simone diz estar bem com o resultado da cirurgia e não se arrepende de ter optado pela mastectomia. "Para mim, é melhor ter saúde que amamentar", afirma.
Caso britânico
Casos como o de Simone são raros. Mais incomum ainda é o da britânica Aleisha Hunter, que foi noticiado no início do mês, diagnosticada com a doença aos dois anos de idade.
Entre os médicos brasileiros, a história gera desconfiança. "É possível que tenha sido um câncer 'na mama' e não 'de mama'. Seria o caso, por exemplo, de sarcomas ou tumores de pele, que podem aparecer até com um mês de vida", afirma Bastos.
Para Maria do Socorro Maciel, do hospital A.C. Camargo, Aleisha é muito jovem para ter adquirido a doença. "O caso mais jovem que já testemunhei era de uma moça de 17 anos, mas ela já havia menstruado, possuía mamas formadas", diz a médica.
"As estruturas da mama como os ductos, os lóbulos, ainda não estão formados com essa idade, sem falar na ausência de hormônios femininos como estrógeno e progesterona," explica a médica.
A estranheza da especialista encontra respaldo nos dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Para pacientes entre 15 a 24 anos, o número de casos para cada 1 milhão de mulheres, não ultrapassa 2.
Antes de tratar o câncer de mama, há consenso entre médicos sobre as informações que o paciente precisa saber para enfrentar a doença. Antes mesmo da questão estética, a paciente precisa ser informada sobre a possível perda de fertilidade ao iniciar um tratamento com quimioterápicos.
"O médico deve colocar o assunto maternidade em pauta", defende Bastos. "O profissional precisa ser verdadeiro, se você mente, pode perder a confiança da paciente."
"Fiz congelamento de óvulos, ingeri hormônios durante duas semanas, com injeções diárias. Foram 17 ao todo", conta Simone. "Eu decidi pela mastectomia junto com meus médicos e minha família. Queria me livrar do problema radicalmente."
Adriana Amatto, de 31 anos, não teve esse tempo. A notícia do tumor maligno veio logo após a gestação.
"No oitavo mês da gravidez, senti uma parte endurecida na mama direita", conta a nova mãe, que trabalha como fonoaudióloga.
O diagnóstico foi difícil. "Quando eu fui ao hospital pela primeira vez por causa das dores, ainda grávida, me disseram que era uma ilha de gordura", lembra Adriana. "Quando minha filha tinha dois meses, fui fazer um exame para saber mais e acabei descobrindo um carcinoma in situ. A minha desconfiança me fez descobrir o problema."
Para tratar o tumor, Adriana precisou extrair o leite dos seios e passar por mastectomia. Durante a cirurgia, ela teve mais uma surpresa. "Após dez horas na mesa de operação, o que era um caso in situ virou um carcinoma invasivo de 1,4 cm, já que descobriram 16 linfonodos [órgãos que formam o sistema de defesa do corpo] comprometidos, de 33 retirados", explica a fonoaudióloga. O termo em latim é normalmente usado para se referir a tumores que não se espalham pelo corpo, gerando metástase.
Com as sessões de quimioterapia, 15 no total, realizadas de maio até outubro, e outras 25 radioterapias, finalizadas em dezembro, Adriana vai, aos poucos, podendo cuidar da filha recém-nascida. "Não podia pegar meu bebê no colo, mas tentei dar o máximo de carinho e fazer ela não esquecer meu cheiro," conta.
Simone passa, atualmente, pela 11ª sessão de quimioterapia
Sem alarde
Segundo Silvio Bromberg, médico do Albert Einstein, que cuidou do caso de Adriana, as estatísticas internas do hospital não mostram aumento específico nos casos entre mulheres jovens e, portanto, não existe motivo para alarde às mulheres que ainda não atingiram a menopausa.
"Na minha própria clínica, de 2009 até agora, eu tenho tratado gente mais jovem, mas isso não quer dizer que a incidência esteja aumentando para essa faixa", explica o médico.
Mas há um alerta para o estilo de vida das mulheres submetidas ao mercado de trabalho. "Hoje as mulheres engravidam mais tardiamente, menstruam mais tarde, tomam hormônio, comem mal, sofrem estresse. Os estudos apontam que tudo isso pode propiciar o desenvolvimento de câncer."